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fotografía del sur de Argentina , autor luis pedro mujica

domingo, 6 de noviembre de 2016

A LAMA NO CASSINO RIO GRANDE DO SUL BRASIL

Fenômeno atinge quilômetros da linha de costa e vem se repetindo com freqüência, pelo terceiro ano consecutivo. Mas antes de qualquer conclusão apressada, vamos avaliar o cenário...
Foto: Fabio Dutra
- É possível que exista um efeito combinado da dragagem com o aumento do material suspenso nas águas. Trabalhos, também, mostram que a taxa de sedimentação da Lagoa está alterada e houve um acréscimo significativo nos últimos 150 anos POR MARCELO DUTRA DA SILVA*
A lama apareceu na praia e a sua origem é um mistério. O fenômeno atinge quilômetros da linha de costa e vem se repetindo com freqüência, pelo terceiro ano consecutivo. Coincidência ou não, a série começou depois da última dragagem no canal de acesso ao Porto do Rio Grande, iniciada em dezembro de 2013, contratada pela Superintendência do Porto do Rio Grande (SUPRG), para remover o volume aproximado de 1,6 milhão de m³ de sedimentos, ao custo de R$ 22 milhões. Mas antes de qualquer conclusão apressada, vamos avaliar o cenário.
O primeiro registro de lama no Cassino data de 1901 e a primeira descrição científica de 1965, que atribuiu como fonte original ao fenômeno a carga de materiais em suspensão nas águas da Lagoa dos Patos. Os sedimentos que constituem a “face Patos” foram descritos em 1972 e mapeados de forma detalhada em 1993, indicando para esta cobertura sedimentar um aspecto lamoso. Na sequência, o processo de deposição foi registrado por diversos autores, que atribuíram às tempestades a capacidade de ressuspender e transportar os sedimentos para a praia, formando os depósitos de lama.
Em abril de 1998, uma tempestade depositou toneladas de sedimentos na orla. A lama mudou o perfil da praia por meses e um trecho ficou interditado durante o veraneio em 1999. Desde então, os sedimentos têm se depositado de forma sazonal e a movimentação da lama pode estar associada aos eventos climáticos extremos. O Instituo Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), há tempos, vem alertando para o aumento da intensidade das chuvas e tempestades na região Sul, mesmo em períodos de El Niño moderados. E as mudanças no comportamento do clima são perceptíveis, até para os menos atentos. As ressacas parecem mais intensas, os ventos mais fortes e o mar agitado, com ondas cada vez maiores.
Explicar a origem da lama no Cassino não é uma tarefa fácil e exige uma compreensão dos processos, inclusive ecológicos. O fenômeno vem sendo estudado há anos e está entre as discussões mais nervosas do Instituto de Oceanografia da FURG, onde as opiniões científicas divergem e caminham em direções opostas. Alguns impõem responsabilidade exclusiva à dragagem e propõem medidas de controle e monitoramento mais severas. Enquanto outros desconsideram a dragagem como o principal agente gerador de lama e buscam explicar o fenômeno numa perspectiva mais ampla, de materiais aportados na bacia hidrográfica. Portanto, não faltam argumentos, tampouco propostas e sugestões.
Não tenho dúvidas quanto a importância da dragagem e acho que ela merece toda a atenção possível. A operação envolve a remoção de um volume significativo de materiais, que são extraídos do leito do estuário e transferidos para mar aberto. Suspeitar da dragagem é, no mínimo, plausível e algumas evidências caminham nessa direção. Pesquisadores apontam para o aspecto escuro e compactado da lama; para a concentração elevada de traços do Vanádio, característico dos locais altamente impactados do estuário; para a presença de ferro cristalizado; e a presença do gastrópode Heleobia australis, um pequeno caramujo, que ocorre em estuários, baías e regiões costeiras, preferencialmente com salinidades mais elevadas e em substrato lamoso, pois se alimenta da matéria orgânica/detrito e perifíton. Este organismo possui uma concha, que ajuda determinar o seu ambiente de origem. Os que habitam o estuário apresentam uma concha agredida pelo atrito, enquanto os que vivem em um ambiente mais tranquilo, no fundo lodoso da costa, por exemplo, possuem uma concha mais preservada. Justamente, o caso dos organismos identificados na lama do cassino.
De outra parte, estudo recente, solicitado pela SUPRG, de modelagem da dispersão da pluma de sedimentos em suspensão, conclui que a condição de ventos NE, predominantes na região, determina o aprisionamento dos sedimentos exportados pela Lagoa, alimentando o banco de lama existente no sul dos molhes e que o material depositado no sítio de despejo não demonstra tendência de transporte em direção à praia do Cassino. Estudos também apontam para as atuais taxas de assoreamento do canal de navegação do Porto do Rio Grande e indicam um quadro de aumento crítico no volume de material em suspensão, que chega ao estuário transportado através da Lagoa, o que se associa às observações de plumas mais densas e mais volumosas na saída dos molhes da barra.
É evidente o manejo inadequado dos cultivos agrícolas nas margens do sistema Patos/Mirim, destacou um colega e eu preciso concordar com ele, pois este é o fator decisivo que alimenta o material transportado pela pluma de sedimentos, que percorre a Lagoa e é liberado no oceano. Sim, o fenômeno tem grande chance de estar associado ao aporte de sedimentos. A cada ano, toneladas métricas de solo são perdidas e transportadas pelos rios, em direção à Lagoa, numa curva que cresce na medida em que se intensifica o mau uso da terra e a fragmentação da paisagem. Insistimos em não obedecer a Lei e plantamos até o limite da margem dos corpos hídricos, sem respeitar a cobertura ciliar e empregamos práticas de cultivo equivocadas ao invés de técnicas eficientes na proteção do solo e da água.
Na verdade, é possível que exista um efeito combinado da dragagem com o aumento do material suspenso nas águas. Trabalhos, também, mostram que a taxa de sedimentação da Lagoa está alterada e houve um acréscimo significativo nos últimos 150 anos. Também, que a carga de material em suspensão, aportada pela Lagoa, vem aumentando ao longo do tempo e isso estaria ligado ao processo de ocupação agrícola do planalto, ao norte do Estado, que avançou em termos de diminuição da mata ciliar e erosão dos solos. Ignoramos o significado de natureza e caminhamos no sentido contrário do desenvolvimento, realizando uma dragagem depois da outra, para corrigir um problema que decorre da absoluta falta de gestão e controle do espaço, por parte do Estado.
E mais uma dragagem vem aí. Em 2015 a Secretaria de Portos da Presidência da República (SEP/PR) assinou, em Brasília, o contrato para readequação da geometria do canal de acesso ao porto do Rio Grande. A obra está orçada em R$ 368 milhões e dessa vez serão removidos 1,8 milhão m³ de sedimentos. Um projeto que nasce cercado de promessas e preocupações com o meio ambiente, mas que diante da falta de explicações para presença da lama no Cassino, está impedido de seguir em frente, por um parecer negativo do IBAMA. E mesmo que sejam aplicadas medidas rigorosas de controle, incluindo a precaução de depositar os materiais em terra firme, além de métodos modernos de monitoramento das ondas por bóias e dos sedimentos por traçadores, esta é uma questão que não encontrará solução, se todos olharem apenas, para o fim do tubo.
Atenção! O problema é mais amplo e bem mais complexo. Ele começa na transformação histórica da paisagem e é lá que devemos tentar interferir, estimulando novas políticas de planejamento e gestão do uso da terra. O aporte de sedimentos precisa ser reduzido. Com menos material em suspensão, menor a necessidade de novas dragagens e, quem sabe, a redução da lama na praia do Cassino.
*Ecólogo, professor, doutor | TOMADO DE AGORA DE RGS BR 

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