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sábado, 5 de mayo de 2018

MÉDICO ALERTA PARA RISCO DE CEGUEIRA EM DOENTES COM TOXOPLASMOSE


Silveira orienta que todos que convivem com pessoas contaminadas façam exame da doença http://jcrs.uol.com.br/_conteudo/2018/04/geral/623937-medico-alerta-para-risco-de-cegueira-em-doentes-com-toxoplasmose.html)
CLÁUDIO SILVEIRA/ Patrícia Comunello Santa Maria já registra 176 pessoas com toxoplasmose. O número foi divulgado nessa sexta-feira (4) pelas secretarias da Saúde do município e do Estado. Ainda há 219 casos em investigação para verificar se são ou não da doença. Pelo menos 681 notificações suspeitas chegaram até agora aos serviços de saúde desde que o surto foi descoberto, em fim de março.  Enquanto não se descobre a causa da contaminação, novas medidas foram anunciadas: Criação de um ambulatório específico para exames oftalmológicos de pacientes suspeitos ou portadores da doença (que funcionará cinco dias por semana). Credenciamento de laboratórios de Santa Maria para a realização de exames que possam fazer a contraprova da toxoplasmose. Busca de mais medicamentos para tratar a doença junto ao Ministério da Saúde. Santa Maria fica ainda longe da cidade brasileira que registrou o maior surto da história da doença no mundo, que foi São Miguel do Avaí, no Paraná, que somou 600 casos em 2001. O médico oftalmologista gaúcho Cláudio Silveira, que tem um centro de referência em tratamento de toxoplasmose em Erechim, atuou nos cuidados de pacientes e busca das causas da contaminação na cidade que tinha 5 mil habitantes. Silveira acompanha a situação em Santa Maria, já falou com o prefeito Jorge Pozzobom e reforça que a atenção deve ser dada a um dos principais problemas que podem ser gerados pela doença: a cegueira. Também adverte que todos os que convivem com infectados devem fazer exame para verificar se estão ou não com a doença. "É importante orientar os profissionais para observar os sintomas de problemas nos olhos", adverte Silveira, que é professor de pós-graduação na Escola Paulista de Medicina. O campo de pesquisa é o das uveítes, doenças inflamatórias que podem comprometer totalmente a úvea ou uma de suas partes (íris, corpo ciliar e coróide). A toxoplasmose é uma das causas. Silveira atua há mais de 40 anos com estes problemas. O oftalmologista gaúcho lembra que seu pai, o médico Fernando Gomes Silveira, que trabalhou em Erechim, identificou casos de toxoplasmose e seus danos para a visão e militou intensamente para alertar sobre a doença. Silveira faz dois alertas: Todas as pessoas que convivem com quem foi contaminado devem fazer testes para ver se têm a doença. "Quem come na mesma mesa e convive com o mesmo ambiente deve fazer o exame." Mais de 10% das pessoas, pelos estudos até hoje, vão desenvolver lesão ocular que pode ser grave e levar à cegueira. Por isso, o exame do olho deve ser permanente. "Nem todos têm os mesmos sintomas, alguns podem ter dor no corpo, febre, uns são mais fortes e não mostram nada. Mesmo no exame do fundo de olho, pode não dar nada agora, mas aparecer algo em 10 anos." Confira todos os esclarecimentos, alertas e orientações de Cláudio Silveira sobre a toxoplasmose: JC - O que é a toxoplasmose e como surge? Cláudio Silveira - É uma doença causada por um protozoário, o Toxoplasma gondii. Tem gente falando em vírus, não é, é um protozoário. A principal forma de contrair é pela alimentação, como carne crua ou mal passada, e embutidos como salame. Mas é muito raro que esteja em carne bovina. É mais em carne de porco, ovelha e frango, nestes casos, principalmente nos miúdos como coração. Tenho ouvido falar que o leite ou o queijo podem transmitir, mas é extremamente raro e quando ocorrer vai ser registrado em publicações internacionais, como exceção. JC - Por que a carne pode ser contaminada? Silveira - Tudo começa com gatos (mas pode ser onça e tigre), mas o felino doméstico é o mais comum. Ele elimina o protozoário pelas fezes nos primeiros seis meses de vida quando contrai a doença, na maioria das vezes. Ele elimina milhões de oocistos (chama-se cisto quando o protozoário entra em contato com a carne e troca de nome). O oocisto que o gato elimina vai para a terra entre três a seis dias, dependendo da umidade, esporula e se torna infectante. Não é o pêlo que transmite. Em uma caixa de areia, por exemplo, onde tiver fezes, se a criança for brincar pode pegar. Galinha que cisca no pátio pode ter contato, e o porco pode ter contato ao ingerir milho. Até a fruta que cai no pé e tem contato com fezes pode acabar sendo contaminada. Outra coisa, o gato costuma enterrar as fezes no jardim ou na horta. Por isso, as pessoas acabam pegando, ao consumirem hortaliças e frutas. JC - Como prevenir a contaminação pela verdura, por exemplo? Silveira - Ao lavar, use iodo ou vinagre que tem em casa. Coloque uma colher de sopa de vinagre em um litro de água e deixe de molho. Essa mistura não mata o oocisto, mas o ovo tem uma cola e adere à folha. Ao passar na água corrente, vai liberá-lo mecanicamente. JC - A água é um risco mesmo, como se cogitou em Santa Maria? Silveira - Sim. O primeiro surto de toxoplasmose com água foi na ilha de Vitória, no Canadá, onde gatos selvagens contaminaram a água e cem pessoas tiveram contato com a doença. Foi a primeira vez que se encontrou esta forma de transmissão. E foi em um local onde a água tinha todo cuidado, era de primeiro mundo. A preparação que se faz com a água não mata o toxoplasma. No Brasil, tivemos um surto muito maior, em São Miguel do Ivaí, no Paraná, em dezembro de 2001, e onde fui dar consultoria. Examinei centenas de pessoas. Lá foi uma gatinha que eliminou as fezes perto de uma caixa d'água que abastecia a cidade ficava no chão. O bichinho teve uma ninhada, que entrou na caixa e espalhou o protozoário. Quando encontramos muita gente pegando a doença, a água pode estar relacionada pela facilidade de contato. Lá tinha a população rural, que usava água de poço, e a urbana consumia da rede pública, que foi só a que pegou. Foram 600 pessoas atingidas. Foi o maior surto de toxoplasmose no mundo até hoje. Era uma cidade pequena com 5 mil habitantes e todo mundo começou a ficar doente. JC - Qual é o risco para as gestantes? Silveira - Em qualquer época da gestação é perigoso ter a doença. Se for nos primeiros três meses, a chance de contaminação do feto é de 10% a 11%. Se for nos últimos três meses, estão dizendo que não teria problema. É o contrário, pois aumenta a chance de contaminar o feto de 10% para 60%. Mas ocorre uma inversão: a gravidade é maior no primeiro trimestre da gestação porque o bebê não está formado, pode dar problemas muito graves e até causar o aborto. Entre os problemas, estão a microcefalia e hidrocefalia. JC - Uma pessoa com a doença pode transmitir para outra? Silveira - Não é impossível, mas é raríssimo. JC - Quais foram as medidas adotadas em Santa Isabel? Silveira - Estudos de epidemiológicos mostraram que mais de 10% dos infectados tiveram tardiamente lesão grave no olho com risco de cegueira. Tudo porque a retina é a primeira a ser afetada, mas a doença pode ir para os neurônios, portanto, não é uma moléstia tão boazinha, precisa ser cuidada. Todas as pessoas que se contaminaram têm de examinar os olhos, e isso é personalizado. Ou seja, cada paciente tem de ser tratado de uma maneira. Alguns vão precisar de remédio, outros terão de ser acompanhados. A pessoa precisa buscar o médico se surgir uma mancha preta no olho, como uma neblina, que pode aumentar, indicando que a pessoa pode estar começando a desenvolver uma lesão de olho por causa da toxoplasmose e deve ser tratada. Não adianta sair tratando todo mundo. As medicações são muito fortes e devem ser usadas com critério. Nem tanto ao mar nem tanto à terra. Ouço o pessoal dizer que vai tratar as pessoas com sulfadiazina, uma droga tóxica para os rins e que tem uma indicação muito específica. Tem de usar o que é menos agressivo possível. Daqui a pouco vão ficar doentes por usar tantos remédios.  JC - Para o tratamento, o que é importante? Silveira - É importante que os médicos possam atuar com as uveítes. Falam em fazer pulsão do líquido amniótico para diagnóstico. Isso pode causar aborto! Às vezes, coletar sangue no braço para detectar o anti-corpo já é eficaz, pois se faz a identificação indireta. Precisa ter cuidado para não criar alarme ou causar danos ao feto. Não é uma doença que vai passar de uma pessoa para outra. JC - É possível saber a gravidade da toxoplasmose em Santa Maria? Silveira - Ainda não se sabe qual é o tipo de toxio que tem lá. No centro de referência que temos aqui em Erechim identificamos o tipo de sepa. Tem toxoplasma bonzinho e tem os perigosos, que são as cepas atípicas que são encontradas no gen do parasita. Quando elas são identificadas, há maior risco de causar problemas graves, mas só saberemos após a identificação. Agora o importante é avisar as pessoas para se cuidarem e adotarem medidas simples, como o cuidado com a água. O cozimento resolve. Tudo que é cru tem de cuidar. JC - Quem convive com pessoas que possuem a doença devem fazer exame? Silveira - Todos devem fazer o exame de sangue e de fundo de olho. Sempre falo a meus pacientes que quem come na mesma mesa e convive com o mesmo ambiente deve fazer o exame. Quando uma criança chega aqui com sintomas, mando fazer exame em toda a família e sempre encontramos mais casos. Nem todos têm os mesmos sintomas, alguns podem ter dor no corpo, febre, uns são mais fortes e não mostram nada. Mesmo no exame do fundo de olho, pode não dar nada agora, mas aparecer algo em 10 anos. Mais de 10% das pessoas, pelos estudos até hoje, vão desenvolver lesão ocular que pode ser grave e lavar à cegueira. JC - O senhor acredita que, se for a água o meio de contaminação, Santa Maria pode ultrapassar Santa Isabel do Avaí em registros?     Silveira - Sinceramente, não sei. Falei com o prefeito e colocamos especialistas da Escola Paulista de Medicina à disposição. Acho que eles estão conduzindo bem a situação. E todo mundo quer ajudar. Casos podem surgir depois, pois a doença pode ser assintomática. Espero que a experiência de Santa Maria alerte para a necessidade de fazer teste de água e para maior atenção à toxoplasmose. O tempo de vida do protozoário é de dois anos, e na água, de 20 meses.  - Jornal do Comércio /
Tomado de journal do comercio de rgs br

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