Artigos científicos anunciam os resultados de três vacinas
diferentes para neutralizar o Sars-CoV-2, incluindo a que está sendo testada no
Brasil. Pesquisadores constatam que as substâncias estimulam o sistema
imunológico, sem provocar efeitos colaterais graves
PO Paloma Oliveto
Cientista britânico trabalha na vacina: embora sem
confirmação oficial, especula-se que a imunização possa estar pronta em
setembro(foto: Tolga Akmen/AFP)
Apenas cinco meses depois de a covid-19 ser classificada
como pandemia, três
vacinas — uma britânica, uma chinesa e a outra alemã — passaram nos testes de
segurança e eficácia, e agora falta apenas uma etapa para que estejam
disponíveis. O próximo passo é imunizar um grande grupo de pessoas para
confirmar os resultados. No caso da substância britânica, da Universidade de
Oxford, essa fase já está em curso no Brasil, no Reino Unido e na África do
Sul, com 30 mil voluntários. Atualmente, há 250 substâncias do tipo sendo
pesquisadas no mundo todo, sendo que 17 estão na fase clínica.
Com diferentes mecanismos de atuação, as substâncias
causaram poucos efeitos colaterais e, segundo os cientistas que as
desenvolveram, desencadearam fortes respostas imunológicas nos voluntários.
Ainda é cedo, porém, para saber quantas doses serão necessárias para produzir
os resultados, por quanto tempo elas oferecem proteção e se, de fato, evitarão
que uma pessoa imunizada não pegue a doença em contato com o vírus. Essas
respostas serão dadas na fase 3 dos estudos.
Das três, a vacina de Oxford é, segundo a Organização
Mundial da Saúde (OMS), a que está em estágio mais avançado. Embora haja
especulações de que ela poderá estar pronta em setembro, a informação não foi
confirmada nem pela Universidade de Oxford, nem pela AstraZeneca, laboratório
que desenvolve a substância com a universidade.
Cautela
Ontem, o diretor de emergências da OMS, Michael Ryan, pediu
cautela, ao comentar os resultados do estudo sobre eficácia e segurança da
substância, publicados na revista The Lancet. “É um resultado positivo, mas há
um longo caminho a percorrer, precisamos avançar nos testes de larga escala, no
mundo real”, destacou. Ryan, porém, parabenizou os cientistas e disse que se
tratava de “bons resultados”.
Assim como no estudo chinês e no alemão, a fase 2 do estudo
britânico foi realizada simultaneamente com a fase 1, prática permitida pelas
agências regulatórias frente à necessidade de se desenvolver rapidamente uma
ação eficaz contra a covid-19. Entraram na pesquisa 1.077 adultos saudáveis,
com idades de 18 a 55 anos.
Uma dose única da vacina aumentou em quatro vezes os
anticorpos que atuam em resposta à proteína spike do Sars-CoV-2 (a principal
peça na maquinaria do vírus) em 95% dos participantes um mês depois da injeção.
Em um subgrupo de 10 voluntários, que receberam duas doses no intervalo de um
mês, 100% apresentaram índices de anticorpos neutralizantes semelhantes aos de
pacientes recuperados da covid-19.
Além de incentivar a produção dos anticorpos, a substância
de Oxford atua também induzindo a ação das células T — células “assassinas”,
que identificam e eliminam o vírus — 14 dias depois da imunização. “Nós temos
dois tipos de imunidade. Um é bem conhecido, quando os anticorpos se ligam ao
vírus e tentam tirá-lo de lá. O outro é o braço celular, onde algumas células
chamadas T podem reconhecer uma célula infectada pelo vírus e matar ambos”,
explica Adrian Hill, pesquisador que atua no desenvolvimento da vacina. A
vacina de Oxford age nessas duas frentes.
Reações
Os efeitos colaterais mais comuns foram dor de cabeça e
fadiga. Alguns participantes também relataram dores musculares, calafrios e
febres, mas, segundo o estudo, um paracetamol foi capaz de resolver as queixas.
Sara Gilbert, pesquisadora de Oxford coautora do artigo publicado na The Lancet
diz que, embora seja preciso conhecer mais o vírus — não se sabe, por exemplo,
a força da resposta imune necessária para proteger contra o Sars-CoV-2 —, os
resultados são promissores.
“Uma vacina
bem-sucedida pode ser usada para prevenir a infecção, a doença e as mortes na
população mundial”, afirma. De acordo com Gilbert, em um primeiro momento,
trabalhadores de hospitais e idosos devem ser prioridade para a imunização. Em
nota,o neurocientista Mene Pangalos, vice-presidente executivo da área de
pesquisa e desenvolvimento da AstraZeneca, afirmou que os planos da companhia
são de produzir a vacina em larga escala, como “acesso equitativo” pelo mundo.
Também na The Lancet, um grupo de pesquisadores chineses relatou sucesso na fase 2 do estudo de outra candidata a vacina. Na primeira etapa, foram testados 108 adultos. Agora, mais 508 pessoas de 18 a 55 anos se prontificaram a receber a dose. Divididos em dois grupos (baixa e alta dosagens), os voluntários foram monitorados e tiveram amostras de sangue coletadas 14 e 28 dias após a imunização. Noventa e cinco por cento dos que receberam doses mais altas e 91% do outro braço apresentaram respostas imunes depois de um mês, tanto com a produção de anticorpos quanto o aumento no número de células T.
Também na The Lancet, um grupo de pesquisadores chineses relatou sucesso na fase 2 do estudo de outra candidata a vacina. Na primeira etapa, foram testados 108 adultos. Agora, mais 508 pessoas de 18 a 55 anos se prontificaram a receber a dose. Divididos em dois grupos (baixa e alta dosagens), os voluntários foram monitorados e tiveram amostras de sangue coletadas 14 e 28 dias após a imunização. Noventa e cinco por cento dos que receberam doses mais altas e 91% do outro braço apresentaram respostas imunes depois de um mês, tanto com a produção de anticorpos quanto o aumento no número de células T.
As reações adversas mais comuns foram febre, fadiga e dor no
lugar da injeção, mas os cientistas notam que esses efeitos foram fracos a
moderados. “O estudo de fase 2 adiciona evidências sobre a segurança e a
imunogenicidade em uma população maior que a testada na fase 1. Esse é um passo
importante e os estudos de fase 3 já estão sendo conduzidos”, disse, em nota,
Feng-Cai Zhu, pesquisador do Centro de Controle de Doenças e Prevenção da
Província de Jiangsu.
Os autores, porém, destacam algumas limitações da pesquisa.
Primeiro, os participantes foram acompanhados apenas até o dia 28. Por essa
razão, não se sabe a durabilidade da resposta imunológica. Além disso, o estudo
foi conduzido em Wuhan, na China, onde surgiu a doença. Se a eficácia será
igual em outras populações ainda é uma incógnita. Os cientistas esperam
responder a essa questão na próxima etapa.
» Resposta imune
Das 17 vacinas que estão sendo testadas em humanos, três
tiveram resultados da fase 2 divulgados ontem:
» Vacina do Reino
Unido: utiliza um vírus que, em chimpanzés, causa gripe, mas é inofensivo
para humanos. Em laboratório, os cientistas modificaram o patógeno para ele
ficar mais semelhante ao Sars-CoV-2. O vírus geneticamente alterado recebeu
instruções genéticas para reconhecer a proteína spike do causador da covid-19.
Essa estrutura garante a entrada do micro-organismo nas células, onde ele
passa a se replicar.
» Vacina da China:
utiliza o adenovírus, um vírus comum que, em humanos, causa gripe. Ele foi
atenuado em laboratório para não causar a doença. O adenovírus envia o material
genético responsável por codificar a proteína spike. Assim, o sistema
imunológico desenvolve anticorpos que lutam contra o Sars-CoV-2 em contato com
o patógeno.
» Vacina da Alemanha:
é produzida com RNA mensageiro, o material genético do Sars-CoV-2. A substância
leva instruções para a produção da proteína spike, mas, como o mRNA é
manipulado geneticamente, ele não torna o receptor doente, apenas estimula a
produção de anticorpos. // TOMADO DE
CORREIO BRAZILIENSE
No hay comentarios:
Publicar un comentario