Enviado por Agostinho Vieira -
Carta aberta a Barack Obama, de Kumi Naidoo
Caro Sr. Presidente,
Meu Nome é Kumi Naidoo, sou o diretor-executivo do
Greenpeace Internacional e também presidente da Campanha Global de Ações pelo
Clima (www.tcktcktck.org), além disso, atuo como Embaixador Global da Campanha
para Ações contra a Pobreza (www.whiteband.org). Mas, hoje, eu escrevo para
você como um africano, como alguém do mundo em desenvolvimento e como um pai.
O mundo precisa de sua liderança agora, e pela primeira vez,
você tem um apoio popular imenso, com uma maioria de americanos que acreditam
que a mudança climática é uma ameaça real.
Em 2009, você recebeu o Prêmio Nobel da Paz logo antes da
Conferência do Clima de Copenhague. Havia uma forte expectativa de que você
iria liderar os esforços multilaterais para combater o aquecimento global. Todo
mundo esperava que você não cometesse os mesmos erros do seu antecessor, George
W. Bush, que ignorou o aviso da CIA e do Pentágono de que a mudança climática é
a maior ameaça à estabilidade geopolítica, à segurança e à paz.
Em seu discurso de vitória, depois de ter sido reeleito para
um segundo mandato, você inspirou mais uma vez a esperança de pessoas ao redor
do mundo que se preocupam com os efeitos do clima global e querem garantir um
planeta habitável para as futuras gerações. Você disse: "Nós queremos que
nossos filhos vivam em uma América que não está sobrecarregada por dívida, que
não é enfraquecida pela desigualdade, que não está ameaçada pelo poder
destrutivo do aquecimento do planeta." Esta esperança aumentou quando em
uma coletiva de imprensa, em 14 de novembro de 2012, você pediu "uma
conversa em todo o país..." para ver "como podemos moldar uma agenda
que acumula apoio bipartidário e ajudar a movimentar essa agenda para frente...
e... ser um líder internacional" para a mudança climática.
Um grande contraste entre o que você diz e o que seus
negociadores em Doha estão fazendo. Seus negociadores para mudanças climáticas
continuam a minar a esperança de que os Estados Unidos vão ser algum dia um
cidadão global ambicioso para o clima. Com todo o respeito, Sr. Presidente, a
visão dos seus negociadores não se alinha nem com a maioria das pessoas no
mundo, nem com um número crescente de vozes da opinião pública informada dentro
dos Estados Unidos propriamente.
Embora o enviado especial para Mudança Climática, Todd
Stern, e o enviado especial adjunto, Jonathan Pershing, digam que os Estados
Unidos têm uma "forte e sólida" posição, eles têm consistentemente
entregue o oposto. Eles continuaram a bloquear as negociações sobre a
elaboração de regras comuns para a contabilidade sobre os esforços de redução
da poluição, que são necessárias para a compreensão se os esforços globais são
suficientes ou não. Embora tenham dito que o financiamento climático dos
Estados Unidos para os países em desenvolvimento seria mantido, não vai se
comprometer a aumentá-lo até 2020, além de estar longe da "parcela
justa" de US$ 100 bilhões que vocês concordaram em Copenhague.
Obviamente, o
Congresso está passando por uma crise fiscal, mas seus negociadores paralisaram
as discussões sobre como aumentar o financiamento do clima por meio de fontes
inovadoras, como uma taxa muito pequena no transporte ou transações financeiras
globais. Como o Secretário-Geral das Nações Unidas, Ban Ki Moon, disse na quarta-feira,
os países desenvolvidos com grandes emissões históricas têm uma clara
responsabilidade de avançar com o financiamento para ajudar os países pobres a
se adaptarem aos impactos climáticos.
Sr. Presidente, a falta de liderança dos EUA nas negociações
climáticas tratadas em Doha coloca a sobrevivência de milhões de pessoas do
continente Africano e do mundo em risco. Nos últimos cinco anos, o crescimento
do uso de carvão causou mais de dois terços do aumento das emissões globais de
CO2, empurrando as emissões de gases do efeito estufa para um nível recorde.
Nas últimas semanas, o Banco Mundial, a CIA e o PNUMA advertiram sobre as
conseqüências da mudança climática. Declarações de seus negociadores de que os
Estado Unidos estão fazendo "enormes esforços" é desmentida pela sua
falta de liderança em requerer reduções executáveis de CO2 e outros
gases-estufa.
A posição dos Estados Unidos aqui em Doha trai as pessoas
que perderam suas vidas durante o furacão Sandy. Ela trai as pessoas que estão
enfrentando os efeitos da seca intensa nos Estados Unidos. Ela trai as
aspirações de um número crescente de jovens norte-americanos, alguns dos quais
eu conheci aqui em Doha, que querem que os Estados Unidos se recupere dos oito
anos de negação do mandato do presidente Bush, que atrasou o progresso nas
negociações climáticas. Eu sinto a responsabilidade de informar que esta falta
de liderança desapontou profundamente muitas das mesmas pessoas que estavam tão
energizadas por sua promessa de esperança e suas promessas para se juntar à
comunidade internacional.
Aqui em Doha, continuamos a ouvir reivindicações
perturbadoras ou infundadas por parte de seus negociadores. Um exemplo é a
afirmação de que a meta de 2020 dos Estados Unidos de reduzir a poluição do
aquecimento global em 17% em relação a 2005 se baseia na ciência, quando os
maiores cientistas climáticos do mundo exigem metas muito mais elevadas para os
países industrializados, e um novo estudo do Programa das Nações Unidas para o
Meio Ambiente (Pnuma) mostra um alargamento do fosso entre os compromissos
existentes e o que é necessário para evitar os impactos mais devastadores das
mudanças climáticas. Seus emissários aqui exageram sobre os compromissos dos
Estados Unidos para financiar iniciativas climáticas globais, enquanto os Banco
Norte-americano para Exportação-importação gasta cinco vezes mais em subsídios
a combustíveis fósseis, que só vão acelerar catástrofes climáticas.
Francamente, o tom de seu enviado especial e enviado
especial adjunto também minou a credibilidade dos Estados Unidos. Nas últimas
semanas, o Banco Mundial e a CIA advertiram sobre as conseqüências das mudanças
climáticas desmedidas. Neste contexto, os negociadores alegarem que os Estados
Unidos estão fazendo "enormes esforços" em vez de aceitar a
necessidade de redução de poluição apoiada por um consenso de cientistas
globais ameaça sabotar essas negociações climáticas. Sem uma mudança de rumo da
sua equipe de negociação, o problema está piorando a cada dia.
Este ano já trouxe tempestades devastadoras, secas e
inundações, causando significativa perda de vidas e danos a importantes
infra-estruturas, inclusive, não só no seu país, mas também na China, Índia,
África e Europa. Este foi ainda um outro sinal de aviso e um teste para saber
se os governos vão proteger seu povo. No rastro do furacão Sandy, da seca, dos
incêndios e outros eventos climáticos extremos que afligiram o povo
norte-americano durante este ano, é hora de trazer a política do clima em
consonância com a realidade científica, nacional e internacional.
A mudança climática não é mais uma ameaça de um futuro
distante. No final de um ano que tem visto os impactos das mudanças climáticas
devastarem casas e famílias em seu país e em todo o mundo, é o momento perfeito
para refutar as alegações desacreditadas de políticos subscritas pelos
poluidores que lucram com a inação.
Sr. Presidente, precisamos de você para assumir uma
liderança ousada em relação ao que é realmente necessário para reduzir a ameaça
do aquecimento global para os Estados Unidos e para o mundo. Isto deve incluir
o apoio a uma revolução na política de energia com base em energias renováveis
limpas e eficiência energética nos Estados Unidos e no mundo. Também
significa o fim dos subsídios aos combustíveis fósseis e a exportação de carvão
de propriedade pública, rejeitando o gasoduto de Keystone XL, a perfuração de
petróleo em águas do Ártico, além de fazer da prevenção de catástrofes
climáticas a peça central da política externa dos Estados Unidos.
Você tem que decidir se você os negociadores que enviou aqui
para Doha defendem ou não a sua posição. Para o mundo confiar nos Estados
Unidos, ele precisa ver uma liderança ousada, que garanta que a temperatura
global não exceda os níveis que a ciência alertou e cause desastres para o
nosso planeta. Este objetivo essencial só é possível com a liderança dos
Estados Unidos hoje.
De um pai para outro, deixe-me aproximar e fazer esse apelo,
que o que está em jogo aqui é o futuro dos nossos próprios filhos e dos filhos
deles. Como alguém que estava tão inspirado pela sua eleição para presidente
dos Estados Unidos em 2008, por favor, permita-me evocar três frases que você
usou na campanha para a minha conclusão: "Um planeta em perigo",
"A urgência feroz do agora" e "Yes We Can. " Eu acredito
fortemente que a sua mensagem, em 2008, estava absolutamente certa, e acredito
que, se reconhecermos a urgência do agora, podemos enfrentar o desafio de um
planeta em perigo e garantir que o espírito de otimismo impregnado pelas
palavras "Sim, nós podemos" agora deve reinar.
Atenciosamente,
Kumi Naidoo
Diretor-executivo
Greenpeace Internacional
Tomado de blog economía verde del diario O Globo de br
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