Em capítulos, os motivos do fracasso de um investimento de
R$ 300 milhões
Investimento em parques eólicos de Santana do Livramento
fracassou devido a uma sucessão de equívocos administrativos, má gestão de
recursos e até um temporal que derrubou oito de 27 torres projetadas para
funcionar com a força do vento
Por: Marcelo Gonzatto
Parte de estrutura milionária está à deriva na área rural do
município da Fronteira OesteFoto: Omar Freitas / Agencia RBS
No interior de Santana do Livramento, na região da Fronteira
Oeste, quatro parques eólicos deixaram de produzir energia e se converteram em
monumentos ao desperdício de cerca de R$ 300 milhões. Imobilizadas há um ano e
meio, desde que um temporal botou abaixo oito das 27 torres projetadas
justamente para funcionar à base de vento, as usinas não têm previsão de voltar
a operar.
Os detalhes da história por trás da desativação dos
cata-ventos indicam que equívocos administrativos e impasses legais foram mais
determinantes do que o mau tempo para sucatear o projeto.
Os quatro parques eólicos paralisados, chamados Cerro Chato
4, 5, 6 e Cerro dos Trindade, tinham capacidade instalada de 54 megawatts (MW),
o suficiente para abastecer cerca de 100 mil casas.
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Em vez de transformar vento em eletricidade, as pás das duas
dezenas de geradores que resistiram ao vendaval de dezembro de 2014 permanecem
estáticas. Um dos gigantes de metal, fibra e plástico destruídos ainda se
encontra espalhado no campo à espera de remoção. Os outros sete já foram
recolhidos como sucata de luxo.
A ventania apenas antecipou o fim das atividades nos quatro
parques da empresa Eólicas do Sul, que tem a estatal Eletrosul na composição
societária e, como resultado, também é um mau exemplo de gestão de recursos
públicos. A Eletrosul tem 49% de participação nos projetos, que foram
financiados pelo BNDES.
Empresa argentina entrou em recuperação judicial
As unidades já enfrentavam dificuldades para funcionar
devido à quebra da companhia fornecedora dos aerogeradores — coração do sistema
responsável por converter energia mecânica em elétrica — e única capaz de fazer
a manutenção e a operação dos mecanismos vendidos à Eólicas do Sul.
A Wind Power Energia (WPE), nome do poderoso conglomerado
argentino Impsa no Brasil, encerrou as atividades no país e entrou em
recuperação judicial sob alegação de falta de pagamento por parte da Eletrobras
de um empreendimento bilionário construído em Santa Catarina. A Eletrobras, por
ironia, é a controladora da Eletrosul — prejudicada pela quebra da Impsa no
país.
Possíveis soluções esbarraram em impasses envolvendo a
Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel), a Eletrobras e a Justiça.
Confira, a seguir, os principais capítulos da insólita história de como R$ 300
milhões investidos no Estado foram jogados ao vento.
Capítulo 1
O vendaval que levou as torres
O vendaval que levou as torres
Ventos de até 240km/h derrubaram oito torres em parque
eólico em Santana do LivramentoFoto: Arte ZH / Agência RBS
As torres dos parques eólicos são projetadas para resistir
aos ventos a fim de produzir energia, mas, no dia 20 de dezembro de 2014, oito
delas acabaram derrubadas por jatos de ar que teriam atingido até 240 km/h, em
Livramento, em um fenômeno conhecido como microexplosão (veja ilustração
acima).
Com mais de cem metros de altura e 600 toneladas de peso, as
estruturas foram jogadas ao chão e levaram à interrupção das atividades nas
usinas equipadas com geradores da Impsa.
A Eletrosul, por meio de nota enviada a ZH, sustenta que
"todos os testes e ensaios comprovaram que as estruturas foram construídas
adequadamente e de acordo com as normas. A destruição dos aerogeradores foi
causada por um evento de força maior".
Um relatório da Aneel de abril de 2015 dá outra
interpretação do caso. Conforme o documento, os aerogeradores afetados pelo mau
tempo foram projetados com uma resistência inferior à dos aparelhos de outros
parques eólicos localizados na mesma região e que não sofreram nenhum estrago
com o vendaval.
A análise da Aneel aponta que os cata-ventos das usinas de
Cerro Chato 1, 2 e 3, que resistiram à microexplosão, foram desenhados para
suportar a rajadas de 60 metros por segundo, o equivalente a 216 km/h. Os
aparelhos instalados nas unidades paralisadas previram rajada máxima de 52,5
metros por segundo,
ou 189 km/h. O texto da agência reguladora sustenta que
"a empresa poderia ter adotado para seus aerogeradores um maior
coeficiente de segurança (...) dadas as características da região da campanha
gaúcha (...)".
Questionada sobre esse trecho específico do relatório da
Aneel, a Eletrosul não se manifestou. Além das quatro unidades que contam com
material da empresa argentina e estão paralisados, Livramento abriga outros
sete parques do chamado Complexo Eólico Cerro Chato, e que seguem funcionando.
Nenhum conta com material fornecido pela Impsa.
Na área afetada pela microexplosão, restos de um dos oito
cata-ventos derrubados permanecem espalhados ao longo de vários metros. A
estrutura da torre de sustentação já foi recolhida, mas as pás e o gerador no
qual elas se ligam ainda estão por lá.
Capítulo 2
A gigante argentina faliu e sumiu
Empresa do país vizinho está em recuperação judicial e não
deve retomar atividades no Rio Grande do SulFoto: Omar Freitas / Agencia RBS
No dia 6 de setembro de 2008, ninguém menos do que a então
presidente argentina, Cristina Kirchner, compareceu à solenidade de inauguração
do parque industrial da Indústrias Metalúrgicas Pescarmona (Impsa) em Suape, em
Pernambuco.
De propriedade da célebre família Pescarmona, com sede em
Mendoza e operação direta em 10 países, a empresa é uma das referências no
setor energético latino-americano. Nos últimos anos, a companhia deparou
com a pior crise de sua história — que a levou a ceder 40% de seu capital a
credores, exigiu negociação de uma dívida de US$ 1 bilhão e culminou no
abandono dos quatro parques eólicos em Livramento, para os quais forneceu 27
geradores.
— Simplesmente foram embora do país — lamenta uma fonte
próxima aos investidores das usinas de Cerro Chato que prefere não se
identificar.
A empresa chegou a ter a falência decretada no Brasil, mas a
medida foi revertida na Justiça após um acordo com credores, e a companhia se
encontra em recuperação judicial.
O escritório em Buenos Aires, procurado por ZH, enviou nota
após sete dias de solicitações via e-mail e telefone. No texto, alega que a
Eletrobras deixou de pagar US$ 200 milhões ao longo de três anos pela energia
de um complexo eólico em Santa Catarina que custou R$ 1,3 bilhão a uma
subsidiária da Impsa no Brasil, a Energimp. Os pagamentos foram regularizados
por decisão judicial, mas o desequilíbrio no caixa já havia chegado a uma situação
insustentável.
A nota não respondeu à questão sobre por que a Impsa não
manteve os parques gaúchos operando. A Eletrobras, também por meio de nota,
informa que "foram iniciados processos administrativos para suas rescisões
(dos contratos) por indícios de irregularidades" de licenciamento
ambiental. A Justiça não reconheceu e ordenou o pagamento dos valores retidos.
A crise internacional da Impsa se agravou com suspensões de
pagamentos na Venezuela e pela perda de espaço no mercado argentino no governo
Kirchner. Segundo reportagem do El País de setembro passado, a relação entre a
Impsa e a Casa Rosada esfriou depois de os Pescarmona terem feito duras
críticas à inflação, em 2006. Em relatório divulgado no ano passado, a Impsa
não figurava entre as 35 principais companhias contratadas pelo governo
argentino.
Capítulo 3
Impasses travam parques eólicos
Impasses travam parques eólicos
A Eletrosul argumenta que a Impsa foi escolhida porque, no
momento da contratação, apresentava preço competitivo, reputação internacional,
boas avaliações de crédito e por ter sido a primeira fornecedora de
aerogeradores a atender aos requisitos do BNDES, o que permitiu a concessão de
financiamento. Mas a decisão se mostraria um equívoco.
A crise da Impsa no Brasil deixou um rastro de problemas: no
Nordeste, não entregou 300 turbinas eólicas para parques no Ceará e no Rio
Grande do Norte. No Rio Grande do Sul, a Eólicas do Sul chegou a contratar
consultorias para tentar retomar a operação das usinas.
O diagnóstico foi de que, sem a participação da fabricante
para operar o sistema informatizado, fornecer peças e realizar a manutenção de
seus próprios equipamentos, seria inviável retomar as atividades.
Segundo a Associação Brasileira de Energia Eólica
(ABEEólica), é comum nos negócios o fornecedor se responsabilizar pela operação
e manutenção.
— Esse é o modelo e funciona muito bem no mundo inteiro —
diz a presidente-executiva da ABEEólica, Elbia Gannoum (leia entrevista
abaixo).
Com a produção de energia interrompida em quatro parques, a
empresa recorreu à Aneel alegando razões de "caso fortuito e força
maior" — a queda das torres e a quebra da Impsa — para suspender o
contrato de fornecimento de energia e evitar que tivesse de pagar pelo
descumprimento do acordo.
A agência não concordou com as razões da companhia e manteve
o contrato em vigor, o que impulsionou prejuízos acumulados de R$ 413 milhões
entre 2014 e 2015.
— A decisão da Aneel aumentou o passivo da empresa e afastou
possíveis novos investidores para substituirmos os geradores, que é a única
saída — observa uma fonte ligada à Eólicas do Sul.
Em nota, a Aneel sustenta que "a empresa tem
responsabilidade em relação ao acidente e deve cumprir os contratos de entrega
de energia, quer comprando energia no mercado, quer construindo novo parque
eólico, com equipamentos mais resistentes".
Fontes próximas aos investidores de Cerro Chato entendem que
a Aneel tem como filosofia, nos últimos anos, decidir regularmente em favor dos
consumidores, mesmo que contrariando interesses ou supostos direitos das
companhias. A ABEEólica não confirma essa interpretação. Diante do
impasse, os
parques eólicos permanecem imobilizados.
Capítulo 4
Futuro indefinido
Futuro indefinido
Em meio à extensa área rural na Fronteira Oeste, gigantesca
pá que um dia produziram energiaFoto: Omar Freitas / Agencia RBS
Qualquer solução para as usinas eólicas desativadas em
Livramento, mesmo que pouco provável no momento, depende de decisões
judiciais.
Em fevereiro deste ano, as eólicas paralisadas entraram com
ação na Justiça Federal para pedir a rescisão dos atuais contratos de
fornecimento de energia, mas mantendo a outorga que dá direito a voltar a
operar após eventual substituição das estruturas. O caso segue tramitando e não
há estimativa de quanto dinheiro seria necessário para reconstruir as usinas em
Livramento.
Segundo a Eletrosul, "o custo de reconstrução depende
de fatores que só podem ser determinados quando (e se) a decisão for tomada,
como tipo de solução técnica, fornecedor e modelo escolhidos, prazo e situação
do mercado". Não há, também, expectativa de quando poderá sair decisão
judicial sobre o imbróglio.
A situação da Impsa deve tomar rumo mais claro a partir do
dia 21 deste mês, quando uma assembleia de credores irá avaliar o plano de
recuperação da indústria. O administrador judicial da companhia (que atua como
auxiliar do juiz no processo), José Lindoso, afirma que, se a estratégia for
aprovada, seria possível buscar novos investidores que sanassem as dívidas e
reabrissem o parque industrial de Suape.
— A Impsa é uma empresa muito grande, e construiu um parque
muito bom em Pernambuco. Há chineses interessados em investir, mas para isso é
importante o plano ser aprovado — observa Lindoso.
Não há garantia de que a eventual recuperação resgataria os
parques eólicos gaúchos. E o destino dos aerogeradores de R$ 300 milhões segue
ao sabor do vento.
Tomado de zero hora de rgs br




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