Meio ambiente deve
mobilizar toda a sociedade, diz Lara
"A crise pode reorientar o modelo do projeto de
revitalização do Cais Mauá"
FOTOS: MARCO QUINTANA/JC Marcus Meneghetti
Ao avaliar a gestão ambiental de Porto Alegre, a bióloga
Lara Lutzenberger - filha do pioneiro do movimento ambientalista, José
Lutzenberger - não hesita ao afirmar que é preciso avançar em muitos aspectos
(manutenção da vegetação urbana, dos parques, tratamento do esgoto etc). Por
outro lado, também reconhece avanços, como por exemplo o aprimoramento da
coleta do lixo urbano.
Entretanto, acredita que os problemas ambientais só serão
superados com a atuação conjunta do poder público, empresas e indivíduos.
"Não podemos mais esperar que só o poder público ou só o empresariado
resolva. Tem que haver uma ação concatenada em todos os setores da sociedade.
Cada um de nós precisa passar a pensar o que pode fazer dentro da sua esfera de
atuação para dar a sua contribuição", pondera.
Ao falar do pai, Lara não consegue evitar a emoção.
"Não quero ser como o meu pai, mas quero dar continuidade ao seu legado.
Aprendi muito com ele. Era um homem que não só apontava os problemas, mas
principalmente buscava soluções", afirmou ao final desta entrevista ao
Jornal do Comércio, com lágrimas nos olhos. Ela também avaliou o projeto do
Cais Mauá, a relação da cidade com o Lago Guaíba e a arborização da Capital.
Jornal do Comércio - Como avalia a gestão ambiental da
Capital, tanto do ponto de vista da gestão pública, quanto das ONGs
ambientalistas?
Lara Lutzenberger - A gestão ambiental da nossa cidade, como
provavelmente a de todas as cidades brasileiras, tem muito a melhorar. A cidade
sofreu muito ao longo das décadas, sobretudo agora, em meio a essa grande crise
política. Também é verdade que não é só uma questão de gestão pública, é também
uma questão de sociedade. A sociedade brasileira é, em grande parte, descuidada
com a natureza, com o meio ambiente. Então, não atribuo as falhas - o descaso
que temos com a arborização urbana, com a manutenção dos nossos parques etc. -
só ao poder público. Por que não temos, por exemplo, mais canteiros públicos
floridos, mais sofisticados nos nossos parques? Em grande medida, porque a
nossa sociedade os depredaria. Então, a gente não tem o cuidado, o respeito
para cuidar dos espaços públicos. Isso também acontece com a mobília pública,
monumentos, ruas etc.
JC - Apesar disso, Porto Alegre é considerada uma das
cidades mais arborizadas do Brasil...
Lara - Porto Alegre até pode ser uma cidade arborizada. Mas,
durante décadas - apesar do tratamento correto da vegetação urbana ser uma das
bandeiras do meu pai -, a maior parte das árvores foi extremamente mal cuidada:
sofreu agressões, teve um tratamento inadequado ou simplesmente não teve os
cuidados necessários para crescer de forma saudável, para resistir melhor ao
tempo. A maior parte das árvores teve podas equivocadas meu pai dizia que as
mutilaram. Ou então sofreu danos pelas intempéries, que não foram tratados, o
que as tornou mais frágeis. Muitas árvores que poderiam estar frondosas não
estão, por causa dos descuidos ao longo do tempo. Por isso, muitas árvores caem
com qualquer vento, qualquer chuva.
JC - E os parques...
Lara - Os nossos parques são extremamente limitados,
comparados aos europeus e norte-americanos. Em Porto Alegre, eles se resumem
basicamente a árvores e gramados: não têm canteiros realmente planejados e
cuidados; a diversidade dos parques é limitada, normalmente com o monocultivo
de determinadas espécies. Por exemplo, o Parque Marinha do Brasil é um corredor
verde muito bonito, mas composto praticamente só por tipuanas, que, ainda por
cima, é uma planta exótica. Então, há descuidos, que vêm de décadas e, infelizmente,
ainda não foram sanados.
JC - Então não houve muitos avanços na gestão ambiental...
Lara - Na verdade, houve avanços, sim, em alguns aspectos. E
é importante reconhecer isso. Mesmo na manutenção da arborização da cidade,
percebo melhorias, especialmente na capacitação do pessoal que faz as podas.
Por exemplo, nas semanas que antecederam o temporal que assolou a cidade em 29
de janeiro, vibrei com a qualidade dos trabalhos em torno das árvores no Parque
Marinha do Brasil: as podas foram feitas corretamente e ainda foi implantada
uma rede de iluminação muito bonita. Foi uma grande lástima que quase todo esse
esforço tenha se perdido por consequência da tempestade. Também houve avanços
significativos no processo de coleta seletiva do lixo urbano, tanto na expansão
para todos os bairros, quanto no aprimoramento da infraestrutura e das
condições trabalhistas dos catadores. Recentemente, tenho percebido um esforço
crescente em iniciativas que visam à mobilização da sociedade para auxiliar com
a separação do lixo a partir das suas residências. Além disso, está para ser
lançado um material educativo sobre isso, no qual o meu pai é um personagem na
forma de cartum, ilustrado pelo cartunista Edgar Vasquez.
JC - O saneamento também é uma questão central na gestão
ambiental...
Lara - O saneamento é um dos problemas mais graves que temos
no Brasil. Nos últimos anos, avançamos muito pouco em relação ao tratamento dos
resíduos sólidos e dos efluentes. E, à medida que a população aumenta, os
passos que damos para melhorar são anulados pelo aumento populacional, pois
gera mais efluentes e resíduos. Não conseguimos avançar em uma velocidade
suficiente para contrapor-se ao aumento do problema.
JC - De que forma isso pode ser solucionado?
Lara - Os países europeus demonstram que é possível
solucionar o problema do saneamento básico. Eles também tiveram crises e, mesmo
assim, ao longo das últimas décadas, conseguiram reverter a poluição por
efluentes em vários grandes rios de Londres, Paris, Alemanha. Eles desenvolveram
processos eficientes, mas muito onerosos, o que implica um compromisso sério do
governo em planejar e executar essas medidas a longo prazo.
JC - O Programa Integrado Socioambiental (Pisa), cuja meta é
chegar ao tratamento de 77% do esgoto de Porto Alere, vem sendo implementado
desde os anos 2000, por vários governos que passaram pela prefeitura. Como vê a
evolução do programa ao longo desses anos?
Lara - Rotineiramente, vejo notícias de que ele está sendo
efetivado. Só que, como acontece com frequência no Brasil, num prazo mais lento
do que o previsto. Nessa questão do tratamento dos efluentes, achei muito boa a
iniciativa da empresa de segurança que financiou a implantação de uma
ecobarreira no arroio Dilúvio. Foi uma iniciativa empresarial que promoveu um
benefício coletivo. Apesar de singela, tem um impacto enorme ao evitar que toda
a poluição despejada sobre o Dilúvio desemboque no Guaíba.
JC - A participação de empresas privadas pode ser uma saída?
Lara - As iniciativas empresariais, individuais e das ONGs
podem, sim, contribuir. Acredito que, diante do tamanho do desafio que
enfrentamos hoje, só o somatório de todas as iniciativas pode nos trazer alguma
experiência de reversão (dos danos ambientais). Não podemos mais esperar que só
o poder público ou só o empresariado resolva. Tem que haver uma ação
concatenada em todos os setores da sociedade. Cada um de nós precisa passar a
pensar o que pode fazer dentro da sua esfera de atuação para dar a sua
contribuição. Isso não exime o poder público da sua tarefa, mas soma a esse
esforço outras iniciativas.
JC - A questão ambiental se tornou mais importante para a
sociedade hoje?
Lara - Creio que sim. As pessoas estão começando a procurar
mais o alimento orgânico, a alimentação saudável, porque está cada vez mais claro
que uma alimentação industrializada equivocada repercute na nossa saúde: gera
obesidade, favorece o surgimento de tumores, várias doenças. Da mesma forma,
está cada vez mais claro que a água que bebemos está saindo do controle, por
conta da poluição. Se antigamente ambientalistas - como o meu pai - apenas
traziam um alerta para a sociedade sobre a possibilidade de isso acontecer no
futuro, hoje já vivemos isso. Está cada vez mais claro que ou diminuímos nossa
pegada sobre o meio ambiente e passamos a zelar por ele, ou a vida se tornará
insustentável. Socialmente, essa mudança ambiental também repercute no estado
de espírito das pessoas, desagrega a sociedade, repercute negativamente no
tecido social. Por isso valorizamos cada vez mais essas iniciativas que parecem
trazer alguma segurança, uma luz no fim do túnel, nesse momento em que vemos o
avanço da poluição, o risco sobre a segurança alimentar, a má gestão dos
recursos hídricos.
JC - Se fala muito em Porto Alegre que "a cidade deu as
costas para o Guaíba". Concorda?
Lara - Isso é a coisa que mais me parte o coração quando
penso em Porto Alegre. É uma cidade localizada em uma região privilegiada,
junto a um estuário imenso, junto à Lagoa dos Patos, uma das maiores do mundo.
Todas as cidades que têm encostas exploram essas áreas de maneira comercial e
cultural de forma tão charmosa... Aqui, realmente, demos as costas para o rio.
Só vemos os armazéns do porto quando chegamos de avião. Senão, nos deparamos
com um muro (da avenida Mauá). A maior parte da orla também não é transitável.
É o caso da encosta aqui do lado da avenida Edvaldo Pereira Paiva (Beira-Rio).
É verdade que, nos fins de semana, se libera a rua só para os pedestres, mas,
no dia a dia, não são locais que possam ser usufruídos. Vejo um potencial
tremendo em Porto Alegre, não só turístico, mas também de qualidade de vida
para os seus cidadãos, que é desconsiderado. Mesmo quando se tentam iniciativas
de revitalização da orla, são feitas de maneira tão intempestiva, tão
improdutiva.
JC - Como enxerga o projeto para o Cais Mauá, que propõe uma
mudança naquela região...
Lara - Não sei nem mais se vai sair do papel, porque as
empresas interessadas naquela região já estão recuando. Do jeito que está, é um
desgaste, um abandono total, que faz com que a cidade não consiga usufruir de
forma alguma. Só estamos dando tempo para que tudo aquilo se transforme em
ruína. Por outro lado, entendo que, ao se fazer um trabalho de revitalização, é
fundamental que se pense em um projeto que sirva à sociedade, que a população
possa ocupar o espaço de forma prazerosa, democrática, além de se tornar um
ponto turístico. O projeto aprovado é equivocado: está centrado em uma proposta
elitista que enxerga os shoppings como única alternativa cultural, comercial.
Não são as grandes redes (comerciais) que o cidadão espera encontrar em um
local como os armazéns do Centro Histórico. Recuperar aqueles armazéns seria
uma forma de recuperar a vitalidade da região. Se instalar um shopping lá,
estaremos virando as costas para o Centro de novo. O que nós queremos é ocupar
o bairro, a cidade, tornar ela um centro vivo, com pessoas dos mais diversos
setores sociais convivendo. Com a crise econômica, acredito que os empreiteiros
estão percebendo que o que eles projetaram provavelmente não vai ser exequível.
Os shoppings estão vivendo uma grande crise nesse momento. Talvez por aí, se
consiga reorientar esse projeto. Se forem feitas algumas adequações, ele pode
se tornar o ideal.
JC - Como avalia as licenças ambientais concedidas pelo
poder público?
Lara - É extremamente falho o sistema dos licenciamentos
ambientais. Inclusive porque o poder público está completamente desestruturado.
Ou falta equipe, ou existe uma vulnerabilidade muito grande para fazer conchavo
com os licenciados. Não só na esfera pública local, como na estadual e na
nacional.
JC - Como está a Fundação Gaia? E a empresa Vida?
Lara - Hoje, a fundação está concentrada no Rincão Gaia,
onde fica a nossa sede, próximo à cidade de Pantano Grande. É um local de muita
natureza e diversidade de ambientes, no qual consolidamos um centro de
convergência de todas as pessoas que atuam na promoção de um mundo mais
sustentável. Lá, o que fazemos é um trabalho voltado para a educação, a
sensibilização e mobilização da sociedade para com o meio ambiente. Promovemos
cursos, oficinas e projetos sociais ligados à educação ambiental. E a empresa
também segue bem. O foco é reciclagem de resíduos industriais, mais
especificamente no âmbito da celulose. Temos a situação de que a CMPC (grupo
proprietário da Celulose Riograndense, para a qual a Vida presta serviço)
quadruplicou sua unidade em Guaíba, o que significa que também aumentamos o
volume do nosso trabalho, que é o de dar um destino a todos os resíduos da
empresa. Também temos uma filial na Bahia.
Perfil
Filha do ambientalista José Lutzenberger, a bióloga Lara
Lutzenberger nasceu em 24 de fevereiro de 1970, no Marrocos. Quando tinha 11
meses, a família veio para Porto Alegre, onde Lara passou a maior parte da sua
vida. Estudou no colégio Santa Rosa de Lima, na época dirigido por freiras
dominicanas, e no Santa Inês. Aos 17 anos, em 1987, ingressou no curso de
Biologia, na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (Ufrgs), onde permaneceu
até 1993, quando se formou. Como ela própria explica, levou seis anos para
concluir a graduação (enquanto a maioria dos alunos termina em quatro), porque,
durante a faculdade, acompanhava o pai em viagens para conferências e palestras
em diversos lugares do mundo. Quando o ambientalista faleceu, em 2002, Lara
assumiu a presidência da Fundação Gaia, organização não governamental criada
por Lutzenberger para difundir um modelo de vida sustentável. Também passou a
dirigir a Vida Produtos e Serviços em Desenvolvimento Ecológico Ltda., empresa
especializada na reciclagem de resíduos industriais idealizada pelo ecologista.
TOMADOD E JOURNAL DE COMERCIO DE RGS BR

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