Preocupação ambiental eleva valor de empresas, diz
presidente de ONG internacional
RICARDO MIOTO DE SÃO PAULO
FOTO Scott Poynton, presidente da ONG The Forest Trust
Poynton comenta ainda as dificuldades de ao mesmo tempo
certificar as boas práticas ambientais das empresas e depender dos recursos
oferecidos por elas.
No Brasil, a ONG trabalha com empresas como Natura, Grupo
Pão de Açúcar e Camargo Corrêa.
*
Folha - Como a organização se banca? Vocês recebem dinheiro
das empresas?
Scott Poynton - Sim. Cerca de 90% da nossa receita vem daí.
Outros 10% são de fundações que nos apoiam.
Como vocês avaliam as empresas cujo dinheiro mantém a ONG,
não pode surgir um conflito de interesses?
Você tem de ter valores. E é importante deixar claro que
você não quer parceiros a qualquer custo. Nós falamos: "Não trabalhe conosco
se você não quer mudar".
Nosso trabalho é ajudar as empresas a limpar a sua cadeia de
produção, tanto pelo aspecto ambiental quanto pelo social.
Ajudamos a implementar novas políticas, por exemplo, na
gestão ambiental de fazendas e de florestas. Quem são os fornecedores? Como
eles trabalham?
Nosso objetivo não é dizer à empresa "vocês têm de
salvar o mundo", mas "ser sustentável aumenta o valor da sua marca,
reduz seu risco, aumenta a receita". Se a empresa entende isso, tudo muda.
Tivemos experiências ruins com empresas que não queriam
mudar -mudar é desconfortável para muitas. Em geral, as empresas não reagem bem
a críticas. E nós tentamos ser muito transparentes no que estamos fazendo.
Mas não há muitas empresas que procuram apenas
"greenwashing"[propaganda verde, sem que existam ações ambientais de
fato]? A sustentabilidade não acaba sendo um conceito mais ligado ao marketing
do que às operações?
Sim, há muito "greenwashing", uma busca por
melhorar a imagem. E acho que muitas empresas procuram ONGs para isso.
O que vocês fazem quando a empresa não muda? Falam para ela
ir embora?
Nós somos mais cuidadosos com relação a com quem trabalhamos
agora. No começo, há 15 anos, tivemos dificuldades com algumas empresas. Uma
grande empresa nos ofereceu uma doação generosa para que continuássemos como
parceiros. Não aceitamos, claro, e terminamos a parceria.
Embora as empresas com que deixamos de trabalhar saiam da
nossa lista de parceiros no site, evitamos um anúncio público, pois um dia elas
podem mudar e voltar a buscar uma cadeia de produção sustentável.
Nos últimos anos a sustentabilidade, especialmente no que se
refere a aquecimento global, parece ter perdido algum apelo na opinião pública
e entre os políticos. Nos EUA, muitos parlamentares questionam o aquecimento
global, por exemplo. A agenda ambiental anda meio fora de moda?
Por um lado, eventos como o tufão das Filipinas, com
milhares de pessoas mortas, mostram que devemos ter cuidado com a mudança
climática. Por outro, há essa tendência política da qual a Austrália é um
exemplo.
O primeiro-ministro que acaba de assumir [o conservador Tony
Abbott] basicamente não acredita no aquecimento global e cortou todo o
financiamento de programas de redução das emissões de carbono.
No fim das contas, de maneira geral os governos que têm sido
eleitos não encaram o problema de forma enfática. Há uma falta de ação. O
problema é que o desafio do aquecimento global tem de ser enfrentado, não se
pode deixar a conta para os nossos netos TOMADO DE FOLHIA DE SAN PABLO BRASIL

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