viernes, 22 de febrero de 2019

CIENTISTAS DESCOBREM NOVAS PISTAS SOBRE CAUSA DA EXTINÇÃO DOS DINOSAUROS


Extinção teria sido provocada pela atividade silenciosa de vulcões que, depois do impacto de um meteoro, começaram a produzir gases modificadores da atmosfera
PO Paloma Oliveto
Esqueleto de um tiranossauro: os animais gigantes viveram durante 160 milhões de anos e desapareceram da Terra há cerca de 66 milhões: extinção intriga leigos e cientistas até hoje (foto: AFP)
Esqueleto de um tiranossauro: os animais gigantes viveram durante 160 milhões de anos e desapareceram da Terra há cerca de 66 milhões: extinção intriga leigos e cientistas até hoje
(foto: AFP)
Eles dominaram a Terra por mais de 160 milhões de anos, até serem varridos do planeta há cerca de 66 milhões de anos. Até hoje despertando fascínio e curiosidade, os dinossauros protagonizam um debate ainda não resolvido: o que, afinal, causou a extinção de um grupo composto por milhares de espécies e que ocupou o globo por tanto tempo. Em um estudo publicado na revista Science, pesquisadores sustentam que o evento foi resultado de uma conjunção de fatores: a queda de um meteoro no Mar do Caribe e a atividade das chamadas Armadilhas Deccan, um depósito de vulcões a meio mundo dali, onde hoje é a Índia.
Contudo, ao contrário do que já se sugeriu, o trabalho da Universidade de Bekerley, na Califórnia, sugere que não foram as fortes erupções de lava que mataram a megafauna pré-histórica. A atividade dos vulcões, um resultado de superterremotos deflagrados pelo impacto do meteoro, de fato levou à maior destruição em massa de que se tem notícia, destacam os pesquisadores, mas não da forma que se imagina. O sistema de datação utilizado pelos cientistas indicou que, no ápice desse fenômeno, a extinção já havia ocorrido. Diferentemente, eles sustentam que o fim da era dos dinossauros está atrelado às mudanças climáticas causadas pela emissão de gases produzidos no magma subterrâneo, o que independe da ejeção de lava.
As teorias do impacto e da atividade vulcânica onde hoje é a Índia vêm sendo propostas há tempos. Mas, segundo os pesquisadores que publicaram na Science, sem o nível de precisão que técnicas modernas de datação agora permitiram fazer. “Mais que lançar luz sobre o passado, o estudo nos informa como são as respostas da biosfera a mudanças ambientais dramáticas e pode ajudar a validar as hipóteses sobre as prováveis consequências das mudanças antropogênicas que vivenciamos hoje”, observa Seth Burgess, pesquisador do US Geological Survey, que não participou do trabalho.
As teorias do impacto de um asteroide ou cometa e do vulcanismo surgiram nas décadas de 1980 e 1990, com as descobertas, respectivamente, de níveis elevados de irídio nas camadas de transição entre os períodos Cretáceo e Paleogeno, indicando a ejeção e o choque de minerais, e de uma cratera de impacto na península de Yacután, no México. “Apesar dessas evidências, a hipótese foi alvo de algum ceticismo porque muitos eventos de extinção, incluindo o da transição Cretáceo/Paleogeno, coincidem com a erupção de volumes enormes de rocha vulcânica na crosta terrestre”, continua Burgess.
No estudo da Universidade de Bekerley, os cientistas apresentam uma cronologia dos eventos que coincide com a megaextinção do fim do período Cretáceo, o chamado limite K-Pg. A sequência de vulcanismos de um milhão de anos cuspiu lava por distâncias de pelo menos 500km pelo continente indiano, criando os chamados basaltos de inundação das Armadilhas Deccan que, em alguns lugares, têm quase 2km de espessura. “Eu diria, com grande confiança, que as erupções ocorreram entre 50 mil anos e 30 mil anos depois do impacto, o que significa que os eventos estavam sincronizados dentro de uma margem de erro”, diz Paul Renne, professor na Universidade de Berkeley e autor sênior do estudo. “Essa é uma validação importante da hipótese de que o impacto de um asteroide ou de um cometa foi seguido por violentas erupções.”
Vulcões Deccan Traps, na Índia: sistema ajudou a destruir a fauna do período Cetáceo, incluindo os dinossauros(foto: Mark Richards/UC Berkeley/Divulgação)
Vulcões Deccan Traps, na Índia: sistema ajudou a destruir a fauna do período Cetáceo, incluindo os dinossauros
(foto: Mark Richards/UC Berkeley/Divulgação)
As novas datações também confirmam estimativas anteriores de que os fluxos de lava continuaram por cerca de 1 milhão de anos, mas trazem uma surpresa: três quartos da lava irromperam após o impacto. Estudos anteriores sugeriram que cerca de 80% do material eclodiu antes do choque. Se esse segundo cenário fosse verdadeiro, os gases emitidos durante as erupções poderiam ter sido a causa do aquecimento global nos últimos 400 mil anos do Cretáceo, quando as temperaturas aumentaram em média 8ºC.
Durante esse período de aquecimento, as espécies teriam evoluído de acordo com as novas condições de calor, apenas para serem pegas de surpresa pelo resfriamento global causados pelo impacto ou pelo vulcanismo. Erupções vulcânicas produzem muitos gases, como dióxido de carbono e metano, conhecidos por aquecer o planeta. Contudo, outras substâncias, como aerossóis sulfúricos, provocam o efeito contrário. O impacto do asteroide pode ter enviado grandes quantidades de poeira para a atmosfera, bloqueando a luz solar e esfriando o globo.
“O frio teria sido um choque do qual a maioria das criaturas nunca teria se recuperado, desaparecendo inteiramente do registro fóssil: literalmente, uma extinção em massa”, diz a primeira autora do estudo, Courtney Sprain, pesquisadora de pós-doutorado da Universidade de Liverpool. “Mas se a maioria das lavas das Armadilhas Deccan surgiram após o impacto, esse cenário precisa ser repensado. Isso muda nossa perspectiva sobre o papel delas na extinção do K-Pg. Ou as erupções em Deccan não desempenharam um papel — o que achamos improvável — ou muitos gases que modificam o clima irromperam durante o período de menor volume das erupções”, diz.
 hipótese de que gases vulcânicos que alteram o clima vazam das câmaras de magma subterrâneas com frequência, e não apenas durante as erupções, é apoiada por evidências de vulcões atuais, como os do Etna, na Itália, e de Popocatepetl no México, disseram os pesquisadores. O magma fervente abaixo da superfície é conhecido por transmitir gases para a atmosfera, mesmo sem a ocorrência de erupções. “Estamos sugerindo que é muito provável que muitos dos gases originados dos sistemas de magma precedam as erupções; eles não estão necessariamente correlacionados com as erupções”, diz Sprain. No caso da extinção do K-Pg, os primeiros sinais de mudanças climáticas significativas ocorreram antes do pico do vulcanismo.
   “Mais que lançar luz sobre o passado, o estudo nos informa como são as respostas da biosfera a mudanças ambientais dramáticas e pode ajudar a validar as hipóteses sobre as prováveis consequências das mudanças antropogênicas que vivenciamos hoje
    Seth Burgess, pesquisador do US Geological Survey
alavra de especialista
Saber crucial
 “A extinção em massa do Cretáceo é um dos eventos mais conhecidos da história da Terra. Ela provoca a imaginação do público como nenhum outro, em parte porque envolveu o fim de uma megafauna particularmente fascinante, os dinossauros, e em parte porque força a humanidade a pensar sobre a própria mortalidade. Nós estamos enfrentando agora o que vem sendo chamado de ‘sexta extinção em massa’, o que tem sido causado por nossas ações. Entender eventos de extinção do passado — suas causas e uma eventual recuperação do clima e da vida — é crucial, portanto, quando tentamos pensar sobre os muitos resultados possíveis da nossa atual trajetória em direção a mudanças climáticas desastrosas, à destruição do ecossistema e à possível extinção em massa.”  Paul Renne, professor na Universidade de Berkeley TOMADO DE CORREIO BRAZILIENSE

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