miércoles, 24 de febrero de 2021

EPIDEMIOLOGISTA PROPÔS 10 AÇÕES CONTRA A PANDEMIA E DIZ QUE O RS ADOTOU APENAS UMA

 Epidemiologista propôs 10 ações contra a pandemia e diz que o RS adotou apenas uma

 


'Após todos esses meses, que não podemos mudar o que aconteceu, será que não vamos aprender?'

ALCIDES MIRANDA/ARQUIVO PESSOAL/DIVULGAÇÃO/JC

Patrícia Comunello

Diante do pior momento desde o desembarque do novo coronavírus no Rio Grande do Sul, o epidemiologista e professor da Ufrgs Alcides Miranda afirma que sugeriu, no começo da crise em 2020, 10 medidas para o Estado enfrentar a pandemia e que apenas uma foi implementada. Além de lamentar a baixa recepção, Miranda questiona em tom de provocação:

"Após todos esses meses, que não podemos mudar o que já aconteceu, será que não vamos aprender? Será que não vamos ter um mínimo de possibilidade de lidar com situações como essas de forma minimamente responsável?"

primeiro caso de infecção foi detectado em 29 de fevereiro, de um empresário do setor calçadista de Campo Bom, no Vale do Sinos, que havia viajado para a Itália. Nesta quarta-feira (24), o Estado soma mais de 600 mil casos, quase 12 mil óbitos e enfrenta a proximidade ou já colapso de UTIs em muitas localidades. No País, são mais de 10 milhões de casos e quase 250 mil mortes

Miranda afirma que há tempo de adotar as ações (as 10 medidas estão listadas no fim do texto) para reduzir o tamanho da crise e enfrentar os próximos meses.

Na lista, estão desde a ampliação de indicadores para ter, por exemplo, bandeiras de risco por bairros, testagem e rastreamento e isolamento de casos eficiente, treinamento de equipes para render quem está esgotado nas linhas de frente de atendimento, mobilização de agentes de saúde e outras áreas para orientar as comunidades sobre cuidados e requisição de toda a rede de atendimento de leitos públicos e privados pelo governo para direcionar o uso da capacidade.

Porto Alegre começou a fazer parcialmente isso agora ao requisitar vagas no Hospital Beneficência Portuguesa.

Sobre os testes, tanto Estado como a Capital oferecem exames, mas em número insuficiente e com demanda cada vez maior. O mais adequado é o RT-PCR, que detecta o vírus ativo. Em quase 12 meses, foram 2,3 milhões de testes, segundo o painel estadual de dados. Foram pouco mais de 1 milhão de PCR (45% do total) e o restante de testes rápidos. Pelo menos 33,5% (355 mil) dos exames de RT deram positivo, maior parte dos mais de 600 mil infectados no Estado. 


Mas mais que fazer é preciso isolar rapidamente o infectado, identificar pessoas que tiveram contato para testar e também isolar para interromper a transmissão. 

A projeção é de crescimento de casos e pressão ainda maior sobre hospitais. Para ele, a pandemia ainda está em uma primeira onda, pois não houve queda forte de novos casos. Mas alerta que, se for uma nova onda agora alimentada por novas cepas, as dificuldades serão ainda maiores.

Outro fato que reforça a necessidade de ampliação das medidas, diz Miranda, além das clássicas de restringir atividades, é o ritmo lento de oferta da vacina, que continuará baixa no curto prazo (nos próximos 60 dias), adiando a esperada imunização de 60% a 70% da população que recebeu as doses. 

Em outra entrevista, o colega de Ufrgs e também epidemiologista Paulo Petry traçou "uma perspectiva sombia" para a crise. O ex-reitor da UFPel Pedro Hallal fez um alerta desconcertante: "Estamos achando normal uma pandemia furar um ano". Hallal criticou ainda a ausência de uma política de testagem e rastreamento de casos pelo governo federal e pelos estados. 

10 medidas e a recepção do governo

O professor de Saúde Coletiva da Ufrgs conta que participou, em março de 2020, de três reuniões por videoconferência chamadas pelo Gabinete de Crise, após ser indicado por uma colega da Ufrgs. Depois, diz, não foi mais convidado. Mesmo assim e animado em poder colaborar, Miranda preparou um elenco de 10 intervenções inspiradas em experiências acumuladas no mundo em décadas de enfrentamento de eventos extremos, como uma pandemia.

 Entre as medidas, Miranda sugeriu ampliar os indicadores para antecipar cenários de agravamento. Foto: Mariana Alves/JC

"Para aplicar em situações como a do ano passado, onde o horizonte da vacinação era de um ano, que é o que está acontecendo agora", rememora. Em meio a esta movimentação, quando comitês auxiliavam a formular as estratégias públicas no Estado, o professor criou até mesmo um curso sobre condução de crises e Gabinete de Crise em saúde.

Mas quase nada saiu como Miranda gostaria, admite em fevereiro de 2021: 

"Participei de três reuniões e depois fui solenemente ignorado. Apresentei as 10 medidas para o manejo da crise ao Conselho Estadual de Saúde, para que fossem levadas ao Gabinete de Crise, o que foi feito", recorda. "Apresentei ao conselho por achar que, por ter representantes do governo e de entidades da sociedade civil, teria mais peso e repercussão do que uma iniciativa individual", explica Miranda, que chegou a falar sobre as medidas em reuniões com a Associação dos Municípios da RMPA (Granpal).  

Das dez iniciativas, o epidemiologista aponta que o Estado adotou uma e parcialmente, que foi a do monitoramento de indicadores, que subsidia o sistema de bandeiras do Distanciamento Controlado, lançado em maio dde 2020. Miranda adianta em esclarecer que o Estado não adotou a estratégia por sugestão dele, até porque, "monitorar indicadores era o básico e mais estados seguiram". 

"Mas o que recomendei não era olhar só a ocupação de UTIs e número de óbitos, mas também eventos sentinelas, que são aqueles indiretamente associados à Covid", contrasta o professor. Também entrariam nesta lista de "eventos sentinelas" as mortes domiciliares e aquelas por causas respiratórias não diagnosticadas. Miranda lembra que houve aumento desses registros em 2020, o que pode ter relação com a Síndrome Respiratória Aguda Grave (SRAG), onde se enquadra a Covid-19.

"Isso é fazer análise prospectiva, que ajuda a antecipar alguns surtos ou problemas", explica o professor. "Nenhum estado brasileiro fez isso infelizmente."

Sobre o foco demasiado em UTIs, o epidemiologista diz que a sistemática pode ter induzido prefeitos a abrirem mais leitos para 'forçar' a queda do indicador para levar à mudança da bandeira. Dependendo da cor, o comércio pode abrir ou não, por exemplo.


Terapia

Lotação de UTIs é um dos principais indicadores para nortear a aplicação das bandeiras de risco. Foto: Alberto Pizzoli/AFP

"A gente viu a abertura de vagas (em hospitais), não sei se verdadeiras, pois depois desapareciam e voltaram na reicidiva em dezembro", descreve Miranda.

Outras ações sugeridas pelo epidemiologista abrangiam a reconversão rápida de indústrias para produzir respiradores e Equipamentos de Proteção Individuall (EPIs) e câmaras de descontaminação. Isso foi feito no começo da pandemia por voluntários, mas depois perdeu força.

Bandeira preta na região, mas regras da vermelha

Miranda aponta a limitação de indicadores do distanciamento controlado como maior problema quando se questiona a cogestão das regiões adotada meses após a criação das bandeiras e que foi mantida pelo governador nesta semana, mesmo com a deterioração do quadro sanitário, atendendo à pressão dos prefeitos, como o de Porto Alegre, Sebastião Melo.  

Pela cogestão, uma região pode ter indicadores (aumento de ocupação de UTIs e óbitos) que indiquem risco gravíssimo (bandeira preta), mas levar a vida dentro das regras da vermelha (risco alto), mas que permite abertura de atividades, mesmo que com certa restrição. Pela preta, nenhuma atividade não essencial pode ter atendimento presencial.

O epidemiologista avalia que este modelo, para ter êxito, precisa que a autonomia relativa do município/região esteja sob uma autoridade coordenada eficiente, exercida pelo Gabinete de Crise.

"É a governança cooperativa e não cada um por si. A fragmentação torna mais fácil uma interferência do poder econômico em algumas circunstâncias", preocupa-se o especialista. "O Estado deu autonomia aos municípios para uma certa adaptação, mas isso é usado para afrouxar os controles em função da pressão econômica", critica Miranda.

O epidemiologista acredita que seria possível fazer a cogestão sem ignorar a bandeira e as medidas que refletem a piora ou melhora dos indicadores. Para isso, teria de ser feito "um monitoramento mais localizado", como por bairros ou cidades, para discernir a variação dos indicadores. Miranda diz que uma mesma região ou bairro de uma cidade poderiam estar sob bandeiras diferentes.

"Assim talvez fosse possivel (a cogestão), mas não há esta sistemática e não se optou por fazer. Os indicadores são insuficientes", condiciona o professor de Saúde Coletiva. "Quando um município muda de cor dentro de uma região que está em outra cor pode ter certeza que a motivação não decorre de uma análise epidemiológica."

200 mil mortes e óbitos evitáveis


Cementerio

O País apresenta um dos maiores níveis de óbitos em relação ao total de casos de infectados. Foto: Marcio James/AFP 

Uma ação mais efetiva e coordenada tem impacto direto na face mais dramática de uma pandemia: a perda de vidas. O epidemiologista previu, em março de 2020, que o Brasil chegaria a 200 mil mortes em dezembro, nove meses depois. Miranda diz que lançou a análise em um vídeo na internet e que foi alvejado por críticas.  

"Fui acusado de ser exagerado, de estar querendo criar uma polêmica desnecessária. Chegamos ao fim de 2020 com um número de óbitos ainda maior", registra, admitindo que preferia ter errado no prognóstico. 

Ele associa parte das perdas à ausência de coodenação nacional para adoção das medidas. Ao longo da crise, a gestão foi uma do governo federal e outra dos estados. Foi assim desde o uso de máscara, ser ou não obrigatório, e restrições que afetaram as atividades econômicas. 

O professor cita que a herança de 11 meses pode ser medida pelos indicadores do Brasil: entre os 29 países do mundo com mais de 50 milhões de habitantes, o País tem a pior taxa de contaminação e de mortalidade.

"Outro dado é que a nossa taxa de letalidade (a pessoa fica doente, complica e morre ou não) não é a pior, é intemediária, por uma única explicação: Sistema Único de Saúde. O SUS felizmente funcionou. Esse é o lado bom da história."

Para o professor da Ufrgs, o governo federal é um caso de "negligência intencional e de omissão criminosa", devido às "mortes evitáveis" na pandemia.

"Isso é relevante porque temos governos estaduais tomando decisões por conta e a falta coordenação interfederativa. Na vacina, estamos vendo isso. Diante da falta de planejamento da oferta de doses, governadores que até tentaram se planejar agora tentam comprar vacina por conta, o que gera até uma competição quando deveria ter uma governança cooperativa", lamenta.

Sem um comando central, o epidemiologista diz que a população pode ser induzida a não se proteger, facilitada pelo cansaço com a situação, o que gera exposições em aglomerações, ou pela falta de alternativa para se sustentar.

Uma ação, como o auxílio emergencial, acabou não sendo renovada e até agora não há definição se voltará. Também o benefício emergencial a setores formais, com carteira assinada, foi encerrado em dezembro sem previsão de retorno, mesmo que muitos setores ainda não tenham conseguido voltar a operar ou mesmo, quando retornarm, não é com capacidade e nem demanda plena.   

"Quem falou em nome do interesse econômico suplantou a autoridade sanitária, que estava dizendo: 'Olha, a gente tem de ser mais precavido, ter mais cuidado'. A gente hoje está pagando o preço disso", vincula o professor. 


Tecnologia para controle de vacinados e não vacinados

Em relação à vacinação, o especialista descreve duas condutas que afetam a execução da imunização. A primeira foi a atitude do governo em relação à disponibilidade. Miranda avalia que se o Brasil tivesse apoiado e reforçado a proposta de quebra de patentes, que foi puxada por nações como a Índia, a produção de doses seria viável e já estaria sendo feita em maior volume em fábricas brasileiras.

O Brasil acabou dependendo de acordos de transferência de tecnologia, seja na Coronavac (Instituto Butantan) ou na Oxford/AstraZeneca (Fiocruz). Até esta quarta-feira, o Rio Grande do Sul havia vacinado menos de 500 mil pessoas.

Vacunas

No RS, quase 500 mil pessoas, como idosos acima de 83 anos, haviam sido vacinadas contra o vírus. Foto: Luiza Prado/JC 

Miranda alerta para a forma como a vacinação é conduzida. Em muitos países, está sendo usado o sistema digital de QR Code, que ajuda a rastrear quem foi vacinado e quem não foi, inclusive para restringir fluxos. No Brasil, o epidemiologista diz que nada estaria sendo feito nesta linha de digitalização. Na hora da vacinação, a pessoa recebe apenas a carteira de vacinação. 

"O QR Code ajudaria em controles sobre quem não se imunizou e que pode ser impedido de viajar de avião. A vacina não é opção pessoal, mas de segurança coletiva. Se a pessoa não quer se vacinar, tudo bem, é um direito, mas não vai expor outros a riscos", relaciona o professor.

10 medidas sugeridas para enfrentar a pandemia no RS

  1. Maior protagonismo da autoridade sanitária: necessidade de intermediações com a coordenação proativa do setor público e governamental de saúde.
  2. Reconversão industrial emergencial, induzida ou determinada pelo governo, para incrementar a produção intensiva de EPIs e de descontaminação para os trabalhadores da Saúde. Se tecnologicamente possível, também para a produção de peças e/ou equipamentos de suporte vital.
  3. Aquisição e o incremento de testagens sorológicas para os trabalhadores de saúde e para o rastreamento de contatos dos casos confirmados.
  4. Regulação única pelo SUS da acessibilidade a todos os leitos de assistência especializada para as complicações da Covid-19, públicos e privados (complementares - credenciados ao SUS, e suplementares - convênios e privados) e com regulamentação prévia sobre as formas de compensação ao setor privado (Não SUS) e a garantia de acessibilidade para todos os casos a partir de critérios de gravidade.
  5. Preparo e disponibilização de recursos e equipamentos extras para a eventualidade de sobrecarga de serviços, como hospitais de campanha e leitos de reabilitação.
  6. Preparo e implementação de estratégias institucionais para o apoio, o suporte e a reposição de trabalhadores de saúde, expostos aos riscos de contágio e sobrecarregados pelo excesso de trabalho e condições de estresse.
  7. Inclusão do monitoramento de eventos-sentinelas que podem ser associados indiretamente à pandemia, como óbitos por complicações respiratórias e os domiciliares, e a análise prospectiva de tendências de curto prazo, visando antecipar medidas de rigor para o "distanciamento social".
  8. Intensificação da propaganda governamental, visando incrementar o convencimento e a adesão voluntária para as estratégias sociais mitigadoras (semiconfinamento voluntário, não fazer aglomerações, reduzir a mobilidade, etc). Esta ação tentaria reduzir efeito da tendência de “relaxamento” da população, que ocorre no adiamento do “pico” epidêmico.
  9. Reforço e incremento de recursos e de estratégias inovadoras para o apoio de equipes e de serviços de Atenção Primária à Saúde (APS), como também, de Assistência Social (Suas).
  10. Não fazer a flexibilização, mesmo que regulada, das medidas restritivas de distanciamento social em uma fase de progressividade intensiva de contágios, de casos e, consequentemente, de complicações.

Tomado de envio de journal do comercio rgs br

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