Ouvir músicas de ioga
antes de dormir pode evitar complicações cardíacas
Fato foi observado em estudo indiano com 149 voluntários
VS Vilhena Soares (foto: Cb/D.A Press)
Relaxamento, estimulação da memória, alívio de dores,
melhora do humor. Os efeitos da música sobre o corpo humano são alvo de
investigações científicas há muito tempo. Pesquisadores indianos podem aumentar
a lista de indicações. Em experimento com mais de 100 pessoas, eles
identificaram que, ouvidas antes de dormir, músicas usadas na ioga podem ajudar
a saúde cardíaca. Os detalhes do trabalho foram apresentados no Congresso da
Sociedade Europeia de Cardiologia, em Monique, na Alemanha.
Em pesquisas anteriores, os investigadores haviam notado que
a música reduz a ansiedade em pacientes com problemas cardíacos. A equipe
decidiu, então, analisar voluntários sem as complicações e ver se as canções
geravam efeitos semelhantes. O estudo contou com 149 pessoas com idade média de
26 anos. Elas participaram de três sessões, em noites separadas, antes de
dormir: com música de ioga, com música pop e sem música. Em cada sessão, a
variabilidade da frequência cardíaca foi mensurada cinco minutos antes da música
ou do silêncio, por 10 minutos durante a música/silêncio e cinco minutos
depois. Os voluntários também tiveram os níveis de ansiedade avaliados antes e
depois de cada sessão.
Os pesquisadores descobriram que a variabilidade da
frequência cardíaca dos participantes aumentou durante a música de ioga,
diminuiu nas canções pop e não mudou significativamente no silêncio. “Já usamos
a música como terapia em nosso hospital e, nesse estudo, mostramos que a música
de ioga tem impacto benéfico na variabilidade da frequência cardíaca antes de
dormir”, ressalta, em comunicado, Naresh Sen, autor do estudo e cardiologista
do Hospital Hridaya Ganesha, em Jaipur, na Índia.
O cientista explica que a frequência cardíaca alta é
extremamente positiva porque, quando baixa, está associada a um risco de 32% a
45% maior de ocorrência de um primeiro evento cardiovascular. Para quem já teve
complicação, a baixa variabilidade da frequência cardíaca aumenta o risco de
eventos subsequentes e morte. Já a queda está ligada a inflamações, causadas
por falha do sistema nervoso.
“O ritmo cardíaco do corpo muda como resposta normal aos
modos de lutar ou fugir ou de descansar ou digerir. Esses estados são regulados
pelos sistemas nervoso simpático e parassimpático, respectivamente, que,
juntos, compreendem o sistema nervoso autônomo. A alta variabilidade da
frequência cardíaca mostra que o coração é capaz de se adaptar a essas
mudanças. Por outro lado, a baixa variabilidade indica um sistema nervoso
autônomo menos adaptativo”, complementa Sen.
Complemento
Os investigadores também detectaram que os níveis de
ansiedade caíram significativamente após o uso de músicas de ioga, aumentaram
significativamente após a música pop e aumentaram após a sessão sem música.
Além disso, os participantes sentiram-se significativamente mais positivos
depois da música de ioga. “Ouvir melodias suaves antes de dormir é uma terapia
barata e fácil de implementar que não pode causar danos”, reforça Sen.
O cientista ressalta que, apesar de os resultados terem sido
extremamente positivos, terapias holísticas, como o uso de músicas relaxantes,
não podem substituir outras intervenções baseadas em evidências e devem ser
usadas como complemento. “A ciência pode nem sempre ter concordado, mas os
indianos, há muito, acreditam no poder de várias terapias além dos medicamentos
como modo de tratamento de doenças. Esse é um pequeno estudo, e mais pesquisas
são necessárias sobre os efeitos cardiovasculares da música”, frisa.
Fausto Stauffer, coordenador de Cardiologia do Hospital
Santa Lúcia Norte, em Brasília, e diretor científico da Sociedade Brasileira de
Cardiologia do DF, destaca que o estudo precisa de uma análise mais aprofundada.
“Pode ser considerada uma pesquisa pequena, pois analisou apenas 149 pacientes
que tinham idade mais baixa e não eram tão propensos a ter problemas cardíacos.
Seria importante analisar pessoas com maior risco dessas complicações
relacionadas ao coração”, sugere. “Mas são novos dados interessantes, que
complementam descobertas que mostraram redução de ansiedade em pacientes com
problemas cardíacos.”
Stauffer acredita que a pesquisa siga uma linha extremamente
importante na área terapêutica. “É interessante lembrar que, hoje em dia, temos
dado foco a novas terapias não farmacológicas, queremos que o paciente mude o
estilo de vida, faça mais exercícios, se alimente de forma adequada. E inserir
uma música relaxante antes de dormir, que parece ter benefícios como vistos
nesse estudo, é algo que pode ser usado, que se encaixa nesse conjunto de
medidas”, frisa.
Palavra de
especialista Redução da ansiedade
“A espiritualidade e a cardiologia estão cada vez mais
ligadas. Quando falamos de espiritualidade, não nos referimos à religião, mas a
uma influência positiva, que ajuda a diminuir a ansiedade. Problemas como o infarto estão ligados ao tabagismo e à
obesidade, mas há outros gatilhos relacionados. Sabemos, por exemplo, que o estresse
tem papel nessas enfermidades. Por isso, ter uma alternativa que reduza esse
estresse é algo muito positivo.”
Edna Oliveira, cardiologista e membro do Instituto do
Coração, em Brasília // tomado de correio braziliense
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